Cheguei cedo para o dia de trabalho no consultório. Liguei as luzes, o rádio-relógio e o ar condicionado; abri a janela da recepção, troquei os sacos de lixo, dei descarga no sanitário; liguei o notebook e dispus a agenda sobre a escrivaninha. Essa é uma rotina quase diária, assim como a constância dos atendimentos, realizados semanalmente. Cada um deles, entretanto, é ímpar, sem padrões ou formatos prontos.

Agora estou no meio do expediente aguardando o próximo paciente. Enquanto aguardo, abro as cortinas e observo a paisagem de concreto através da janela. “Quantos prédios!”. Também vejo árvores, que estão nas laterais da minha vista, muitas delas próximas a um morro à direita, loteado pelas árvores e por casas de dois andares pintadas com cores chamativas. Diferentemente das cores dos prédios, que são apagadas por estes serem antigos com paredes escurecidas pelo acumulo de pó e sujeira, as das casas são bem coloridas e vivas.

“Lá fora deve estar frio”, penso. Faço essa suposição ao ver uma nuvem grande e cinza cobrindo a vista, embora ela seja empurrada para a esquerda, clareando o céu sobre o morro e suas casas coloridas. “Será que vai chover?”. Se chover, a depender da quantidade, o trânsito na cidade fica caótico e nem todos os pacientes vem, mas seus motivos para isso são bem variados, aspecto do caso a caso da clínica.

A chuva tornando o trânsito caótico me faz lembrar da concepção de Freud sobre a formação dos sintomas emocionais, segundo o qual, estes se constituem devido ao estrangulamento de nossas pulsões inconscientes não realizadas. Freud entendia que nossas pulsões[1] visam a realização, e quando não encontramos vasão para elas, investindo-as em algo que permita seu livre fluxo, nossa tensão aumenta e nos sentimos estrangulados – daí a associação com o trânsito caótico num dia de chuva forte, ou mesmo com a nuvem carregada no céu.

Observo os movimentos das pessoas e dos veículos. Pedestres caminham de um lado para outro entrando nos estabelecimentos ou seguindo seu rumo; carros passam na rua soando motores, buzinas e freadas. Também há pessoas trabalhando. Vejo o vendedor de produtos agrícolas com estes à mostra em sua caminhonete; funcionários do supermercado em horário de descanso, sentados conversando; trabalhadores da construção civil construindo as bases de um prédio que, provavelmente, tapará a visão da janela; um ou outro funcionário da farmácia atendendo seus clientes, assim como frentistas no posto de gasolina. De certa forma, tudo isso me faz pensar em fluxos.

Assim como eu, os profissionais que acompanho também estão no meio do expediente. “Cada um tem sua função e valor”, pondero enquanto os observo. “É impossível não entrarmos em contato com funcionários do supermercado, da construção civil, da farmácia ou do posto de gasolina”. Pergunto-me, então, se a sociedade conhece a função ou o valor da minha profissão e prática, “Qual a função ou o valor de um psicólogo ou de um psicanalista?”.

Não é a mesma coisa eu dizer que sou psicólogo e que sou psicanalista, existem diferenças entre ambos, mas tampouco sei se as pessoas que observo tem ideia disso. “Uma de minhas funções enquanto profissional”, reflito, “é a de possibilitá-los conhecer as dimensões do meu trabalho, desmistificar os preconceitos ao redor do que faço e semear uma relação que propicie a busca no futuro.”.

Enquanto meu pensamento vagueia, observo a nuvem ao longe e capto seus movimentos – “Ela está passando devagar” –, assim como a construção logo abaixo – “Essa construção deve demorar um bom tempo ainda”, aspectos que me remetem ao lugar e à importância do tempo em alguns processos físicos, vitais e humanos.

Preparo-me para receber o próximo paciente, alguém que me procurou para lidar com algo que não flui em sua vida. Tenho recebido pessoas com diferentes condições sociais e econômicas, problemas, queixas, demandas e implicações. Algumas vezes elas me procuram buscando um retorno imediato, tentando imputar ao tratamento a mesma pressa que lhes é imposta. A vida contemporânea corre quase descarrilhando, mas somente uma parte dela, enquanto a outra segue lentamente, como as nuvens e as construções.

Refletindo sobre o trabalho que realizo, ele está mais distante do dos funcionários do supermercado, da farmácia e do posto, que entregam de imediato os produtos solicitados aos clientes, e mais próximo do dos funcionários da construção, cujo produto só é entregue após um longo tempo de realização.

Assim como o edifício, que depende da instalação de um conjunto de bases e suportes, do estabelecimento de sua estrutura interna, da consideração de vários detalhes, o trabalho do psicólogo, principalmente os que propõem tratamentos com maior tempo de duração, e o do psicanalista, é o de construir novas estruturas no psiquismo, retificar processos embaraçados e gastos, estabelecer articulações renovadas para que, diante dos acontecimentos, o paciente se posicione apropriando-se de sua própria história e subjetividade de maneira ímpar.

“Nosso trabalho é lento, porém duradouro. Construímos alicerces que viabilizam um modo singular de viver a vida”, foi o último pensamento, de que me lembro, anterior ao paciente chegar. Agora irei atendê-lo.

Assim segue mais um dia de trabalho.

E, por fim, choveu.

 

Flávio Mendes,
Psicólogo psicanalista em Vitória/ES.

Nota:
[1] De forma resumida, o termo “pulsão” foi o conceito que Freud criou para nomear o elemento que está entre o corpo e o psiquismo nos mobilizando para realizá-lo, sempre diferente para cada pessoa, e que é a contraposição para o termo “instinto”, utilizado para falar dos comportamentos estereotipados dos animais.

[2] Sobre o assunto dos sintomas emocionais, sugerimos a leitura do texto “Uma breve descrição da psicanálise“, escrito publicado por Freud em 1924, material no qual ele apresenta a história da psicanálise e a nova compreensão dos sintomas emocionais.

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